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Trabalhando com as dificuldades PDF Imprimir E-mail
(Sarah Doering, in acessoaoinsight)
 
Agora, o que vou dizer sobre trabalhar com a raiva se aplica a qualquer emoção aflitiva. Portanto, se a raiva não for a sua principal preocupação no momento, mas o desejo ou o medo, ou a inveja, ou alguma outra coisa, por favor, preste atenção com cuidado, pois as mesmas palavras são aplicáveis.
Se você estiver sentado e de repente acordar para o fato de que está com raiva, com muita raiva – dê um passo para fora da estória que está se desenrolando na sua mente. Deixe de lado o pensar. Faça uma pausa e permaneça com a sensação de raiva, não importa quão desconfortável ela for. A sensação poderá ser de total repugnância, uma massa confusa, pesada, quente e que queima. Cada emoção possui o seu toque particular e quando ela assume o comando, parece ser uma entidade sólida, substancial, que não tem fim.
 
Na verdade, a raiva não é sólida, mas uma combinação de diferentes componentes: pensamentos, que fazem a estória ficar dando voltas; um toque emocional em particular; e numerosas sensações corporais. E tudo isso, assim como a própria raiva, é transitório. Surge e desaparece, surge e desaparece.
 
Tente deixar de lado os pensamentos. Abandone a estória que está se desenrolando na mente:  “Ele fez isso, ela disse aquilo, isso não é justo ...”. Esses pensamentos são a expressão da raiva e também o seu alimento  Abandone-os e traga a atenção para as sensações no corpo. Permita-se sentir, sinta completamente a emoção, diretamente. Olhe para ver o que está acontecendo. Há calor, há pressão, há tensão, há contração? Onde no corpo estão sendo experimentadas essas sensações? Elas se movem? Elas mudam? Qual a sua relação com elas? Há resistência contra elas? Se houver resistência, permaneça com ela e sinta-a.
 
Se o pensamento for tão forte que fica puxando-o de volta para a estória, faça uma pequena anotação mental “pensando”, “pensando”. A anotação mental mantém viva a atenção plena e é um cordão de sanidade. Ela nos recorda do que na verdade está acontecendo exatamente neste momento – que, muito simplesmente, são pensamentos enraivecidos surgindo na mente.
 
Quando a raiva for forte e custar muito trabalho permanecer no presente, respire fundo algumas vezes, respire através da raiva e depois regresse para as sensações no corpo quando puder. Acima de tudo, aceite o fato de que a raiva está aqui. Abra-se para ela. Dê permissão, com suavidade. Ficar contrariado e enraivecido com a raiva só aumenta a raiva e aumenta a dor.
 
Se a emoção for demasiado intensa para ficar sentado, faça meditação andando. Caminhe rápido. Traga a atenção plena para o caminhar. Ou pare e desfrute da natureza. Olhe para os campos e as árvores contra o céu. Olhe para os pássaros e as pequenas criaturas. Mas não se entregue aos pensamentos. Tenha atenção plena. Pois quando temos atenção plena, não há raiva. A raiva desaparece. Isso é verdade para qualquer emoção negativa. Quando a atenção for incondicional, a negatividade simplesmente desaparece.
 
Apenas uma pequena folha...
 
Faz muitos anos, eu tive uma dessas experiências que fez com que o meu entendimento da prática mudasse significativamente. Foi numa época em que eu estava muito triste. Parecia que o fim do mundo havia chegado para mim. Alguém que eu amava muito havia partido e era improvável que fosse voltar.
 
Caminhando no jardim em frente à minha casa, distraída, peguei uma folha dum arbusto. E depois, por alguma razão, parei e olhei para a folha na minha mão. Minha atenção foi de alguma forma atraída pela folha e comecei a estudá-la com cuidado. Eu fiquei parada, olhando para a pequena folha, as suas veias, as bordas delicadas, a sua suavidade, o seu brilho, o seu verde intenso. E de repente compreendi que aquela tristeza pesada e obscura que estava me deprimindo, havia partido. Meu coração estava completamente leve e em paz.
 
O contraste entre ser engolida pela tristeza e a repentina libertação para a leveza e a paz foi tão forte que o pensamento surgiu: “Essa folha é mágica?” Eu não compreendi em absoluto o que havia acontecido. A mudança foi tão grande, tão completa, que supus que ela tinha de ser causada por algo fora de mim mesma. E com cuidado eu trouxe a folha para dentro da casa. Eu não havia compreendido que a mudança do sofrimento para a paz havia acontecido simplesmente porque por alguns momentos a minha mente esteve focada e plenamente atenta.
 
Na manhã seguinte, eu peguei uma outra folha para ver se ela tinha o mesmo poder, como se a felicidade repousasse numa folha. É claro que não funcionou. Eu só fui compreender muito mais tarde que quando a atenção plena é completa, não há tristeza, não há raiva – pois não há pensamento.
 
O “pensamento” e o “entregar-se ao ciclo de pensamentos”, permitindo que eles sigam indefinidamente, é que faz com que nos sintamos infelizes e nos mantêm infelizes. Quando o pensamento é cortado, as aflições mentais desaparecem. Dukkha é substituído pela felicidade de uma mente alerta e tranqüila.
 
Aquele momento com a folha foi uma grande lição para mim. Pois foi através disso que pude enxergar o poder extraordinário da atenção plena – o seu poder curativo. Quando a atenção está totalmente com algo, qualquer coisa, não há espaço na mente para a tristeza ou para a raiva, ou qualquer outra emoção negativa. Só a atenção está presente. E a paz que provém da completa atenção está acima de qualquer comparação.
 
Se tivesse sido possível transferir aquele tipo de atenção cuidadosa, que havia sido dada para a folha, para qualquer coisa que eu fizesse e sustentar essa atenção, a tristeza não teria nunca retornado. Mas é claro, ela retornou. Aquele momento de presença completa foi apenas um descanso para a minha mente. Foi um tremendo alívio, mas não deu um fim à minha dor, e nem poderia. Para que isso, acontecesse, algo mais era necessário.
 
Na próxima vez que a tristeza surgiu, ao invés de buscar pela cura mágica numa folha, como (para ser honesta) eu continuei fazendo por vários dias, eu deveria ter me voltado para o próprio sentimento de tristeza. Eu deveria ter estado atenta permitindo a mim mesma senti-lo completamente. A menos que seja possível ficar plenamente atenta o tempo todo, do que eu não era capaz, a única forma de finalmente resolver qualquer emoção aflitiva é enfrentá-la de frente, abrir-se para ela, e trazê-la totalmente para a consciência. Quando for completamente compreendida, ela irá se dissipar e desaparecer. Em geral não é possível fazer isso de imediato, é óbvio. Pode ser demasiado doloroso. Então, temos que respeitar as nossas limitações e seguir num passo apropriado.
 
Ao mesmo tempo, é importante compreender que, quando estamos numa situação desagradável que não pode ser mudada, quanto mais rápido a resistência for abandonada, tanto mais rápido estaremos em paz. É bom senso, nada mais. De outro modo, continuaremos batalhando para viver num mundo que não existe, um mundo de fantasia, de como desejaríamos que as coisas fossem, mas não são. Estaremos em dessintonia com aquilo que está acontecendo no momento e o sofrimento será inevitável.
 
O abandono, com a rendição à realidade do momento presente, é a única coisa realista a ser feita. Aceitar uma determinada situação não significa que você precisa gostar dela. Significa simplesmente que, quer gostemos ou não, ela está ali.
 
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